
Muita gente se pergunta acerca do motivo dos Papas iniciarem a quaresma celebrando a Missa de Cinzas em Santa Sabina, em vez da basílica de São Pedro ou São João de Latrão, a catedral de Roma. A resposta reside em uma tradição milenar que remonta ao século VI.
A tradição das Igrejas Estacionais (Statio)
Tudo começa com a peregrinação nas chamadas Igrejas Estacionais. Nos primeiros séculos do cristianismo, o Papa celebrava a liturgia em diferentes igrejas de Roma para fortalecer a unidade da comunidade cristã. Assim, a quarta-feira de Cinzas tornou-se a primeira “estação” oficial da quaresma.
O termo Statio vem do latim e remete a um guarda ou sentinela. É como se a Igreja se colocasse em guarda espiritual para iniciar o combate da quaresma. As Igrejas Estacionais formam, assim, um percurso espiritual que recorda tanto o caminho de Cristo em direção à Cruz quanto a jornada de cada cristão rumo ao céu.
Na prática, a tradição consiste em visitar uma igreja diferente a cada dia da quaresma (e na Oitava da Páscoa), onde a comunidade se reúne para a Missa e orações penitenciais. Ao todo, existem 42 igrejas no roteiro tradicional, lista esta que foi organizada e fixada principalmente pelo Papa Gregório Magno, no século VI. A quarta-feira de Cinzas representa, portanto, o “Dia 1” dessa jornada.
Santa Sabina como a primeira Statio
Existem razões geográficas e históricas para que esta Basílica seja a “cabeça” da quaresma:
- Geografia Espiritual: Situada no topo do Monte Aventino, a subida até a basílica reforça a ideia de subir o monte para encontrar Deus, um conceito central na mística deste tempo litúrgico.
- História: Santa Sabina é uma das basílicas paleocristãs mais bem preservadas de Roma, datada do século V. Sua sobriedade e simplicidade arquitetônica harmonizam-se perfeitamente com o espírito de despojamento e conversão. No século VI, o Monte Aventino era um centro administrativo vital. Iniciar a quaresma ali era um sinal de que a Igreja estava inserida no coração da vida pública romana.
A procissão penitencial
A celebração eucarística não se inicia diretamente em Santa Sabina; há uma logística simbólica muito rica. O Papa e os fiéis reúnem-se primeiro na Igreja de Sant’Anselmo, administrada pelos monges beneditinos. De lá, partem em procissão entoando a Ladainha de todos os santos até a basílica de Santa Sabina. Essa caminhada é um ato público de penitência e simboliza o povo de Deus em êxodo.
Curiosidades
– O Papa é o primeiro a receber as cinzas, impostas pelo cardeal penitenciário ou pelo cardeal titular da Basílica. O gesto recorda que até o Sumo Pontífice é pó e ao pó voltará.
– Exceções recentes: Em raras ocasiões, a tradição foi alterada. Em 2021 e 2022, devido às restrições da pandemia e às dores no joelho do Papa Francisco, a celebração ocorreu na Basílica de São Pedro. Com sua melhora, o rito retornou ao Monte Aventino. Seu predecessor, Bento XVI, em 2013, também não celebrou , pois havia acabado de anunciar sua renúncia ao papado, no dia 11 de fevereiro. Como era sua última grande celebração pública antes de deixar o governo da igreja universal, esperava-se uma multidão que a pequena basílica de Santa Sabina jamais comportaria.






