
Homilia da Missa do Dia de Páscoa
1. Hoje a Igreja proclama, com jubilosa certeza: «Este é o dia que o Senhor fez: exultemos e cantemos de alegria» (Sl 117, 24). Não é um dia entre outros dias. É o dia novo. O dia sem ocaso. O dia em que a história encontra o seu centro e o seu sentido. Porque hoje, verdadeiramente, Cristo ressuscitou. E com Ele, não ressuscita apenas um homem: ressuscita a esperança do mundo, ressuscita o sentido da vida, ressuscita o destino eterno da humanidade.
2. O Evangelho conduz-nos ao sepulcro, ainda envolto na penumbra: «No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro…» (Jo 20, 1).
«Ainda escuro» – não apenas fora, mas também no coração dos discípulos. Escuro como é, tantas vezes, o coração do homem quando Deus parece ausente ou, então, quando já não se reconhece o rosto do outro, do semelhante, como irmão. Assim, são aqueles povos e responsáveis que, obscurecidos pela ideologia, por interesses económicos, por vontade de dominar, ou simplesmente porque sim – não respeitam os direitos de outros povos e subjugam nações… E, no entanto, algo mudou: a pedra do sepulcro foi removida.
Pedro entra. João entra. Veem os sinais. E o Evangelho diz com sobriedade luminosa: «Viu e acreditou» (Jo 20, 8).
Caríssimos irmãos, a fé pascal nasce assim: não de uma evidência esmagadora, mas de sinais que abrem o coração à presença de Deus. Num mundo que exige provas materiais para tudo, a Ressurreição apresenta-se como mistério que se revela à fé, que é «garantia das coisas que se esperam e certeza daquelas que não se veem» (Hb 11, 1). E é à luz de tudo isto que podemos entender a crise do nosso tempo.
3. Vivemos numa cultura marcada por um profundo materialismo. Uma cultura que mede tudo pelo útil, pelo imediato, pelo visível. Uma cultura que perdeu o sentido do mistério e do eterno e, assim, o sentido da vida. E, por isso, cresce um fenómeno silencioso e dramático: um verdadeiro analfabetismo humano e espiritual.
Muitos sabem tudo sobre o mundo, mas ignoram o essencial sobre Deus e sobre a verdade integral do ser humano. Conhecem as linguagens da técnica, mas esqueceram a linguagem da fé e silenciaram as declinações da proximidade e da compaixão. Habituaram-se a viver como se Deus não existisse. E o esquecimento de Deus levou ao esquecimento do homem pelo homem. Deste esquecimento nasceu a indiferença. Uma indiferença que não nega Deus – simplesmente O ignora, como ignora os apelos lancinantes dos frágeis, dos pobres e vulneráveis. Uma indiferença que fecha o coração, empobrece a alma e obscurece o sentido da vida. E assim o homem contemporâneo, rodeado de meios, torna-se muitas vezes incapaz de responder às perguntas fundamentais: Para quê viver? Para onde caminhar? Qual o sentido da vida?
4. É precisamente neste contexto que ressoa, com força nova, o anúncio de Pedro: «Deus ressuscitou-O ao terceiro dia» (At 10, 40). Cristo ressuscitado é o antídoto para o vazio do nosso tempo. Porque Ele revela que o fundamento da existência não é a matéria, mas Deus. Não é o acaso, mas o amor a Ele e aos irmãos. Não é o fim, mas a plenitude.
São Paulo diz-nos: «Se ressuscitastes com Cristo, aspirai às coisas do alto» (Cl 3, 1). Não para fugir do mundo, mas para o habitar com sentido. Não para desprezar a terra, mas para a iluminar com o Céu. A Ressurreição abre a porta da eternidade. E só à luz da eternidade a vida humana encontra a sua verdade.
Quando o homem perde o horizonte do eterno, fecha-se no imediato. Quando perde Deus, perde-se a si mesmo. Mas quando reencontra Cristo ressuscitado, reencontra o seu verdadeiro rosto, a sua real dignidade, a sua vocação sublime.
5. A Páscoa não é apenas um acontecimento a celebrar. É uma vida a acolher. São Paulo diz-nos ainda: «A vossa vida está escondida com Cristo em Deus» (Cl 3, 3). E isto muda tudo. Muda o modo de olhar a vida. Muda o modo de enfrentar o sofrimento. Muda o modo de amar. Muda o modo de esperar.
O cristão é chamado a viver já, no tempo, a lógica da eternidade. A ser, no meio do mundo, sinal de uma vida que não passa. Por isso, é necessário lançar fora o «fermento velho»: o pecado, a mentira, a mediocridade espiritual, e viver como «pães ázimos da pureza e da verdade» (cf. 1 Cor 5, 7), nascendo para uma vida nova, «saindo do sepulcro» com Cristo.
6. Caríssimos irmãos e irmãs: o mundo de hoje não precisa apenas de soluções técnicas. Precisa de corações ressuscitados. Precisa de homens e mulheres que não tenham medo de Deus. Que não tenham vergonha da fé. Que não vivam fechados no imediato, mas abertos ao infinito. Porque só quando o homem se orienta radicalmente para Deus, para o transcendente, para a eternidade, é que o seu coração se liberta.
Liberta-se do medo. Liberta-se do egoísmo. Liberta-se do vazio. Liberta-se da morte interior. A Ressurreição não é apenas a vitória de Cristo. É a possibilidade de uma humanidade nova.
7. Neste dia de Páscoa, cada um de nós é colocado diante do mesmo caminho: ver os sinais… e acreditar. Acreditar que Cristo vive. Acreditar que Deus não nos abandonou. Acreditar que a vida tem sentido. Acreditar que a eternidade está aberta. E, acreditando, viver de modo novo.
Caríssimos irmãos e irmãs: Cristo ressuscitou. E, com Ele, tudo pode recomeçar. Este é o dia que o Senhor fez. Vivamo-lo na luz da fé, na alegria da esperança e na força da vida nova, pois, como diz o Apóstolo, o Evangelho «é poder de Deus para a salvação de todo o crente» (Rm 1, 16). Amen. Aleluia.
Sé Patriarcal, 5 de abril de 2026
† RUI, Patriarca de Lisboa





